"É triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a ouve." (Victor Hugo).

segunda-feira, 25 de julho de 2016

ararinha
Lembra da animação Rio, que tinha como personagem uma arara azul?
 
Foi a arara azul que inspirou a criação da personagem Blue, por estar em vias de extinção desde 2000. A boa notícia é que a arara azul receberá uma área especial para ser reintroduzida no Brasil graças a um projeto do Ministério do Ambiente, que construirá, na Bahia, o Centro de Reintrodução e Reprodução da Ararinha-Azul na Caatinga.Calcula-se que o projeto custará aos cofres públicos cerca de R$ 5 milhões, até que a espécie tenha condições de retornar a seu habitat natural, previsto para ocorrer em 2019. 120 indivíduos da espécie, nativa da caatinga, vivem em cativeiro no Catar, Alemanha e Brasil.
Qualquer espécie ameaçada de extinção ameaça o ecossistema. É o que vem acontecendo com a região da caatinga, que há mais de quinze anos vem sendo afetada pela falta das araras, diz o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho.
A fazenda que receberá as araras fica localizada às margens do riacho Melancia, em Curaçá (BA). A propriedade tem 2.380 hectares e pertence à companhia Al Wabra, do Catar.
O projeto recebe, ainda, o apoio da Associação para Conservação de Papagaios em Extinção, da Alemanha, a Parrots International, dos Estados Unidos, e a Jurong Bird Park, de Singapura. Aqui, o apoio será dado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
  

ÁREAS PRIORITÁRIAS PARA CONSERVAÇÃO, USO SUSTENTÁVEL E REPARTIÇÃO DE BENEFÍCIOS DA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA


Clique aqui para acessar os Resultados da 2° Atualização das Áreas Prioritárias

Introdução

As Áreas Prioritárias para a Conservação, Utilização Sustentável e Repartição dos Benefícios da Biodiversidade são um instrumento de política pública para apoiar a tomada de decisão, de forma objetiva e participativa, no planejamento e implementação de ações como criação de unidades de conservação, licenciamento, fiscalização e fomento ao uso sustentável. As regras para a identificação de tais Áreas e Ações Prioritárias foram instituídas formalmente pelo Decreto nº 5092 de 21/05/2004 no âmbito das atribuições do MMA.

A atualização das Áreas e Ações Prioritárias, em função da disponibilidade de novos dados,  informações e instrumentos, é uma prioridade do MMA, em consonância com as estratégias recomendadas pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), pelo Plano de Ação para Implementação da Política Nacional de Biodiversidade (PAN-Bio) aprovado na 9ª Reunião Extraordinária (Deliberação CONABIO nº 40 de 07/02/06) e pelo Plano Nacional de Áreas Protegidas (PNAP) instituído pelo Decreto nº 5758 de 13/04/2006.

Cabe ao MMA disponibilizar os meios e os instrumentos necessários ao processo de atualização das Áreas e Ações Prioritárias, de forma a garantir a participação da sociedade e o alcance do resultado, que deve refletir as decisões tomadas nas oficinas participativas, usando como subsídio as bases de dados compiladas durante o processo.

Metodologia

Mediante parceria com instituições públicas e a sociedade civil, a metodologia utilizada para a atualização das Áreas e Ações Prioritárias foi discutida na Oficina intitulada “Atualização das Áreas Prioritárias para Conservação, Uso Sustentável e Repartição de Benefícios da Biodiversidade - Alvos e Ferramentas”, no período de 16 a 18 de novembro de 2005, em Brasília (DF), e posteriormente aprovada pela CONABIO, em sua 16ª Reunião Ordinária (Deliberação CONABIO nº 39 de 14/12/2005).

O processo de seleção e identificação das áreas prioritárias adota como base o Mapa de Biomas do IBGE e utiliza a abordagem denominada Planejamento Sistemático da Conservação (PSC), de Margules e Pressey (2000)1, que contempla conceitos ecológicos (tais como, representatividade, complementariedade, eficiência, flexibilidade, vulnerabilidade, e insubstituibilidade) considerando os alvos de conservação (alvos de biodiversidade, de uso sustentável e alvos de persistência e processos).

No PSC todos os alvos de conservação são escolhidos a priori, a distribuição geográfica de cada alvo é considerada, assim como as respectivas metas de conservação desses alvos. Além disso, a vulnerabilidade face à modificação do habitat é estimada objetivamente a partir de dados oficiais primários, que capturam diferentes dimensões dos custos econômicos, sociais e ambientais. A análise dos dados é feita a partir de ferramentas específicas de modelagem espacial, como o Marxan, e Sistemas de Informação Geográfica (SIG). As análises indicam claramente as áreas de alta insubstituibilidade que obrigatoriamente devem estar contidas na solução como áreas selecionadas. A solução final do PSC define um determinado conjunto de Áreas Prioritárias que são capazes de assegurar a representatividade e a persistência dos alvos de conservação.
Conforme Margules e Pressey (2000)2 o PSC permite uma abordagem que promove objetividade e eficiência, cria memória do processo de identificação de prioridades, é estruturado para promover a participação e gera informações que possibilitam negociação informada e capacidade para avaliar oportunidades.
Os resultados principais dos processos são a identificação das áreas prioritárias e sua classificação em 3 níveis (prioridade de conservação, importância biológica e urgência de ação), além das recomendações de ações prioritárias para cada área e sua caracterização quanto às ameaças e oportunidades.
É importante salientar que todas as fases do processo, desde a escolha dos alvos e metas até a produção dos mapas finais, contam com a participação de especialistas convidados, governos estaduais e representantes da sociedade civil, por meio de uma série de oficinais realizadas para cada bioma e para a zona costeira e marinha.

Histórico

O planejamento das ações de conservação necessita de uma base de dados e informações especializados, preferencialmente validados, visando apontar prioridades e otimizar os recursos destinados para essas finalidades. Entre 1997 e 2000, o Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira – PROBIO realizou, pela primeira vez, uma ampla consulta para a definição de áreas prioritárias para conservação nos biomas brasileiros.
 O processo permitiu identificar as áreas prioritárias e elencar as principais ações para gestão da biodiversidade. A Portaria nº 126/2004, de 27 de maio de 2004, do Ministério do Meio Ambiente, reconheceu as Áreas Prioritárias identificadas nesse primeiro exercício de priorização.
Em 2006, foi conduzido o processo de atualização das Áreas e Ações Prioritárias dos Biomas Brasileiros. Das reuniões técnicas saíram os subsídios para os Seminários Regionais, que ocorreram entre outubro e dezembro de 2006. Os resultados foram sistematizados em banco de dados e no mapa com as novas áreas prioritárias, reconhecido pela Portaria n° 9, de 23 de janeiro de 2007, do Ministério do Meio Ambiente.
Desde 2012 está em curso a 2ª atualização das áreas e ações prioritárias, sendo que a Portaria MMA 223, de 21 de junho de 2016, reconhece as áreas prioritárias para os biomas Cerrado, Caatinga e Pantanal. Os processos para a atualização das áreas prioritárias para os demais biomas (Amazônia, Mata Atlântica e Pampa) e para a Zona Costeira e Marinha estão em fase de contratação da instituição que irá auxiliar o MMA na elaboração do banco de dados e realização das oficinas participativas.

Margules, C. R. e Pressey , R. L. 2000. Systematic conservation planning. Nature, 405, 243–253.


Clique aqui para acessar os Resultados da 2° Atualização das Áreas Prioritárias

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Dia Nacional da Caatinga: Codevasf investe em estratégias de conservação do bioma brasileiro      

Dia Nacional da Caatinga: Codevasf investe em estratégias de conservação do bioma brasileiro



O apoio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) às ações voltadas para a conservação da Caatinga é destaque neste 28 de abril, quando se comemora o Dia Nacional da Caatinga. A empresa, por meio do Programa de Revitalização da Bacia Hidrográfica do rio São Francisco, tem apoiado estratégias técnico-científicas que promovem a conservação e o uso sustentável desse bioma, exclusivamente brasileiro, que ocupa 11% do território nacional.
 
Ações dessa natureza estão sendo desenvolvidas nos Centros de Referência em Recuperação de Áreas Degradadas, como o Centro da Universidade Federal de Alagoas (CRAD/UFAL), campus de Arapiraca, e o da Universidade Federal do Vale do São Francisco (CRAD/Univasf), implantados com apoio financeiro da Codevasf/Ministério da Integração Nacional (MI).
 
“O principal objetivo desses centros é desenvolver modelos para recuperação de áreas degradadas, promover a capacitação para a formação de recursos humanos e disseminar práticas de recuperação e desenvolvimento sustentável como: produção de mudas, plantio, tratos silviculturais, capacitação, dentre outros”, afirma o engenheiro florestal da Codevasf, Camilo Cavalcante de Souza. “O apoio da Codevasf foi fundamental para estruturação dos centros oferecendo instalações adequadas para a produção de conhecimento e desenvolvimento dos modelos de recuperação”, finaliza.
 
No CRAD/UFAL, pesquisadores do campus Arapiraca estudam a propagação do mandacaru, xique-xique e da coroa-de-frade. O objetivo principal dessa pesquisa é a manutenção da variedade genética dessas cactáceas que são símbolos da Caatinga. “Nosso trabalho visa à reprodução desses cactos em laboratório e, posteriormente, a sua propagação vegetativa e plantio para garantir a variabilidade genética das espécies no ambiente natural. Nos últimos anos, devido a grande seca, a ação de extrativismo dessas cactáceas tem sido muito grande, principalmente para uso na alimentação animal, ornamentação e no caso da coroa-de-frade, que é utilizada na culinária exótica. Como são plantas que crescem muito lentamente, diversas áreas tiveram essas populações de cactáceas praticamente dizimadas. Nesse sentido, estamos tentando reproduzi-las para formar um banco de matrizes e depois retorná-las para o plantio no ambiente natural”, explica José Vieira Silva, professor da Universidade Federal de Alagoas (CRAD/UFAL), campus de Arapiraca. Ouça: http://bit.ly/1QyQDOn
 
                                                    Herbário Vale do São Francisco
 
Outro trabalho de conservação e preservação da caatinga está sendo desenvolvido pelo CRAD/Univasf. No local, encontra-se instalado o Herbário Vale do São Francisco (HVAS), onde há amostras vegetais da Caatinga que, além de contribuir com o conhecimento científico sobre a flora da região, auxiliam na elaboração de projetos de recuperação de áreas degradadas.
“É importante destacar o apoio da Codevasf para a implementação dos CRADs na bacia do São Francisco, porque, naquele momento, em 2007, tínhamos muita informação fragmentada sobre a biodiversidade da caatinga. Com o incentivo da Codevasf, conseguimos construir esse herbário, que é uma coleção de plantas científicas muito importante para os estudos do bioma. Isso só foi possível porque a Codevasf compreendeu a importância da criação dos CRADs”, afirmou o professor e botânico José Alves de Siqueira Filho. Saiba mais: http://bit.ly/1XVbZeB
 
Um dos trabalhos desenvolvidos pelo centro, em 2012, foi a obra “A flora das caatingas do rio São Francisco: história natural e conservação”. A publicação, além de contribuir com o conhecimento científico em relação à preservação do bioma, resgata uma história natural da convivência do homem com o semiárido brasileiro. “O livro foi um esforço de quase 100 pesquisadores de 40 instituições de pesquisa do país, entre elas o Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas da Caatinga (CRAD) da Univasf. Ele conta com 552 páginas e 13 capítulos. O trabalho juntou toda informação sobre o bioma da caatinga que estava fragmentada, num documento único, resultando no mais completo registro científico já realizado sobre o ecossistema Caatinga”, ressalta Siqueira Filho. “A gente teve a honra de ser agraciado pelo prêmio Jabuti 2013 na categoria Ciências Naturais”, finaliza. Ouça: http://bit.ly/1SycYxN
 
A publicação tem contribuído com a geração de conhecimentos técnico-científicos relacionados à conservação da água, solo e recursos florestais que são a base para o desenvolvimento de programas de recuperação de áreas degradadas. Mais informações sobre a obra estão disponíveis no site do CRAD/Univasf: http://www.univasf.edu.br
Sobre o bioma
 
A Caatinga ocupa uma área de cerca de 844.453 quilômetros quadrados, o equivalente a 11% do território nacional. Engloba os estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Sergipe e o norte de Minas Gerais. Rico em biodiversidade, o bioma abriga 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 de peixes e 221 abelhas. Cerca de 27 milhões de pessoas vivem na região, a maioria carente e dependente dos recursos do bioma para sobreviver. A atuação da Codevasf alcança o território das bacias dos rios São Francisco, Parnaíba, Itapecuru e Mearim, regiões onde é forte a presença desse bioma.
Ouça a matéria especial da Rádio Codevasf:
Fonte: Codevasf

O risco da caatinga virar um deserto"A vegetação típica do Nordeste está literalmente sumindo do mapa




Fonte:  Diario de Pernambuco
     

Bioma exclusivamente brasileiro, a caatinga tem até um Dia Nacional instituído em 2003: 28 de abril. Pena que a passagem da data, mais uma vez, não foi de celebração. A vegetação típica do Nordeste está literalmente sumindo do mapa. Um terço de sua área já se transformou em deserto e o ecossistema típico do semiárido perde terreno ao ritmo de três mil quilômetros quadrados por ano. Dos 950 mil km2 distribuídos entre os nove estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais, 300 mil km2  transformaram-se em poeira, com a perda definitiva de vegetação mamíferos, abelhas, anfíbios,  répteis e peixes.
 
Apesar de sua riqueza e de ocupar 12% do território nacional, a caatinga não tem a mesma visibilidade do que a floresta amazônica, a mata atlântica e até mesmo o cerrado, que conseguem mobilizar até instituições internacionais para suas preservações. Pesquisadores nordestinos travam uma batalha diária para divulgar seus trabalhos e chamar a atenção para a preservação de um ecossistema que é uma riqueza de todos nós.
 
Um deles é o professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina, que reuniu 100 especialistas e publicou, no ano passado, o livro Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação (Andrea Jakobsson Estúdio).
A obra vale o quanto pesa - três quilos - com 556 páginas de textos, fotos e mapas. De 1.031 espécies vegetais coletadas no entorno do Velho Chico, 136 (13,2%) eram restritas à caatinga. Outras 25 espécies cuja ocorrência não era conhecida no Nordeste foram encontradas. Um ecossistema rico, ameaçado por desmatamento e falta de preservação. Isto afeta diretamente o rio mais importante da região, com uma vazão cada vez menor.
 
Um Plano Nacional de Combate à Desertificação foi publicado em 2005. Onze anos depois, poucas ações foram executadas dentro dos três pilares da sustentabilidade: econômico, social e ambiental. Em Pernambuco, o núcleo de Cabrobó - pela agricultura não sustentável - é considerado uma das quatro áreas de desertificação no semiárido nordestino. O Polo Gesseiro do Araripe é um caso crônico de desmatamento para transformação em lenha.
 
A caatinga (“mata branca”, em tupi) sofre, mas como toda sertaneja, é forte. Só que não pode mais esperar. Uma área degradada leva cerca de 40 anos para se recuperar. É preciso tratar a caatinga como um manancial de riqueza, explorando de forma sustentável espécies que podem ajudar as populações a sobreviver nas suas áreas de origem.
(Publicado em: 01/05/2016)
 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016


A exploração do gesso e os riscos da desertificação

O gesso e as placas utilizadas em tetos, banheiros e cozinhas vêm da Chapada do Araripe (PE), onde 80% da vegetação da caatinga foram queimadas.



                                           Najar Tubino



Ouricuri (PE) – A caatinga está verde no sertão de Pernambuco, com as chuvas que caíram em janeiro. A esperança dos sertanejos, reunidos na Caravana Agroecógica e Cultural organizada pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), em parceria com as organizações sociais Caatinga – presente a 25 anos na região-, da ASA e da Universidade Federal Rural de Pernambuco é que ela continue em março. O milho e o feijão já nasceram, mas correm o risco de secar, se a chuva não chegar, encerrando um ciclo de quatro anos seguidos de estiagem.

A Chapada do Araripe está no extremo oeste do estado, no limite com o Ceará e o Piauí, conta com 11 municípios, uma população de 231 mil habitantes, conhecido nacionalmente pelo gesso industrial e agrícola aqui produzido. Uma história de desenvolvimento concentrado, que beneficia uma minoria, já reduziu 80% da vegetação da caatinga, para ser queimada nos fornos das calcinadoras. O mineral gipsita encontrado na Chapada do Araripe tem uma pureza entre 88 e 98%, a mais alta do mundo. Esta também é uma história que envolve êxodo rural, poluição atmosférica, destruição de solos e comunidades de agricultores familiares, prostituição infantil, drogas e alcoolismo.

Essência da caravana é mostrar a realidade

Esses assuntos foram discutidos durante a abertura da Caravana Agroecológica por 120 participantes de vários estados- Bahia, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Minas Gerais. A região também faz parte do estudo “Promovendo Agricultura em Rede”, projeto da ANA com o apoio do BNDES e da Fundação Banco do Brasil. Foram estabelecidas quatro rotas de visitas no campo, para conhecer os problemas enfrentados pelos agricultores e agricultoras familiares com a chegada da indústria do gesso, de grandes obras como a Transnordestina e da pecuária, que substitui a vegetação da caatinga por pasto. A essência da Caravana Agroecológica é esta: retratar o perfil da região, dos sistemas de produção, detalhar a produção agroecológica e mostrar o sofrimento das comunidades com o avanço do capitalismo selvagem que sempre impera no Brasil rural.


O caso do Polo Gesseiro do Sertão do Araripe, porque as minas estão localizadas no vale, e não na serra, é um exemplo amplamente deseducativo. O governo de Pernambuco apresenta como um arranjo produtivo local, que gera 12 mil empregos diretos outro tanto indireto, em 42 minas, 174 indústrias de calcinação – o minério é derretido para produzir o gesso –e 750 indústrias de pré-moldados, uma avaliação do Instituto Tecnológico de Pernambuco para um simpósio da chamada cadeia produtiva realizado em 2014. Os dados são sempre jogados para cima. Mesmo assim, o documento do evento ressalta:

“- Esse cenário – do desmatamento da caatinga – coloca o Araripe como área susceptível à desertificação e suas consequências nos aspectos sociais, e ambientais e econômicos”.

Como vive uma família vizinha da fábrica

Anualmente o Polo Gesseiro consome 652 mil metros cúbicos de madeira para queimar em fornos antigos, que desperdiçam energia. O próprio documento do Simpósio ressalta: “os processos de queima são ultrapassados com grandes perdas ambientais e econômicas”. Lógico que a saída é plantar uma exótica, é também claro que se trata do eucalipto, uma árvore extremamente exigente em água, que neste raciocínio insano, é totalmente adequada para um território que está em um processo de desertificação.

Fiz parte da Rota 4, cujo objetivo era mostrar como vive uma família de agricultores e agricultoras familiares, que tem como vizinho uma calcinadora de gesso. A visão do pó branco estava disfarçada pela chuva que caiu recentemente. Mas normalmente as plantas estão sempre cobertas de branco. Dona Dudu, de 45 anos, moradora há 40 anos no Sítio Riacho Novo, com cinco filhos diz que volta da roça pintada de branco. Não é apenas um caso de poluição atmosférica, que irrita a garganta, os olhos, durante a seca. O pó de gesso penetra ao longo do tempo nos pulmões e termina por calcinar os brônquios. Além do rejeito acumulado perto das minas que ficam a poucos metros da comunidade de dona Dudu.

Prostituição infantil e violência contra mulheres

Antes da instalação da fábrica ela convocou os vizinhos para assinarem um abaixo-assinado contra a instalação da fábrica. Saiu durante o dia para procurar o promotor e o juiz na cidade, mas não conseguiu contato. Voltou à noite para o sítio, que fica no município de Trindade, cerca de 30 km de Ouricuri, e estavam todos apavorados. Não queriam mais participar do movimento. Temiam ser presos. E deu no que deu. Muitas famílias formam embora, inclusive o agricultor que vendeu a terra à empresa, muitos se arrependeram de não protestar e todos se queixam das consequências.

O fluxo de caminhões caçamba carregados de pedras de gipsita é constante, as explosões nas minas – algumas já atingiram mais de 100 metros de profundidade – provoca rachadura nas casas. Os caminhoneiros acampam na beira de estradas, cercadas de botequins de quinta categoria, onde mulheres e crianças são vendidas como mercadoria. A prostituição infantil e os índices de AIDS são elevados na região. Há 15 anos o Fórum das Mulheres do Araripe tenta junto ao governo estadual a instalação de uma delegacia da mulher e um centro de referência ou uma casa de apoio para mulheres agredidas.

Os trilhos separam mãe e filha

Mas a Chapada em grupos, comunidades, cooperativas envolvidos com a agroecologia, que lutam para produzir comida de verdade, sem agrotóxicos. A tradição da organização dos trabalhadores e trabalhadoras sem terra é muito antiga na Chapada do Araripe. Começou na década de 1960 com as comunidades eclesiais de base e com as ligas camponesas. O próprio sindicato dos trabalhadores rurais tem mais de 60 anos em Ouricuri, e a mesma linha de apoio e luta pela terra e por políticas públicas, que beneficiam os agricultores familiares é defendida pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco.

Nas outras rotas, os participantes conheceram a irresponsabilidade das construtoras brasileiras, neste trecho da Odebrecht, encarregada na construção da ferrovia Transnordestina, que já chegou a Araripina, dentro do polo gesseiro. Os trilhos cortam comunidades inteiras, famílias, como do seu João Henrique e de dona Inocência, que precisa descer pelo menos 20 metros, atravessar os trilhos, subir outros 20 metros e chegar à casa da filha, que fica dentro da propriedade da família. Como indenização do corte de um hectare receberam R$3 mil. A responsabilidade social das construtoras no Brasil é pré-capitalista, não enxerga as pessoas que encontra pelo caminho. Por sinal, todo vez que você, a senhora, o senhor, seus parentes e amigos comprarem um apartamento, casa, mansão, não esqueça que o gesso e as placas utilizadas em tetos, em banheiros em cozinhas vieram da Chapada do Araripe, onde 80% da vegetação da caatinga foram queimadas.   

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Mudanças climáticas à vista nas margens do Rio São Francisco

Mudanças climáticas à vista nas margens do Rio São Francisco

 


Na Bahia, quase a metade das cidades da caatinga, no entorno do Rio São Francisco, têm alto risco de sofrer danos provocados pelas mudanças climáticas nos próximos 25 anos. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que mapeou a vulnerabilidade às alterações do clima em 84 municípios, que fazem parte da bacia hidrográfica do Velho Chico e estão localizados na região do bioma caatinga. Coordenada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz-Minas), a pesquisa utiliza uma metodologia desenvolvida na Fiocruz que já foi aplicada para mapear a vulnerabilidade nas cidades do Rio de Janeiro. O trabalho foi financiado pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, por meio de edital, e contou com o apoio da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz.
A gravidade das alterações climáticas previstas para a região foi um dos fatores que levaram os pesquisadores a realizar o estudo. “Esta será uma das áreas mais afetadas pelas mudanças do clima. Além disso, o bioma da caatinga é muito peculiar e característico do nosso país. É importante preservá-lo”, afirma a pesquisadora do IOC Martha Barata, coordenadora-geral do projeto. Especialista em mudanças do clima e cidades, Martha é coordenadora do núcleo da Rede de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Urbanas (UCCRN, na sigla em inglês) para a América Latina, anunciado no ano passado.

Mais calor e menos chuva

Com base em dados do Instituto Nacional de Estudos Espaciais (Inpe), os pesquisadores identificaram as possíveis alterações de temperatura e de volume de chuvas para cada um dos 84 municípios nos próximos 25 anos considerando dois cenários de futuro: um cenário com redução nas emissões de gases do efeito estufa e menor aquecimento global, e outro que considera a progressão contínua dessas emissões e maior impacto no clima. Para 2040, a previsão é a de que a média de temperatura na região suba no mínimo 0,98°C e no máximo 1,75°C. Ao mesmo tempo, o volume de chuvas anual deve cair entre 101 mm e 172 mm no conjunto dos municípios. Além da tendência geral de clima mais quente e seco, os índices apontam para a possibilidade de mudanças extremas. A cidade de Buritirama pode ficar 2,13°C mais quente. Já em Urandi, a queda na precipitação pode ser de 438 mm.
Calcular o impacto das alterações de chuvas e temperatura em cada cidade é apenas uma das etapas para determinar a vulnerabilidade da população às mudanças climáticas. Segundo Martha, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (chamado de IPCC, na sigla em inglês) define a vulnerabilidade como “a propensão a sofrer danos”. Esta é influenciada pelo nível de exposição, pela sensibilidade e pela capacidade de adaptação da população ao fator de perigo. “No estudo, consideramos que o nível de exposição é apontado pelas características ambientais, a sensibilidade pode ser percebida pela ocorrência de certas doenças, a capacidade de reação é indicada pelo perfil socioeconômico do município, e o fator de perigo é a possível mudança do clima”, enumera a pesquisadora.
Fonte: ECODEBATE

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Meio Ambiente

Modelo de recuperação da caatinga é testado em Pernambuco

Rio São Francisco

Projeto envolve o replantio de mudas, a conservação da água e a proteção das plantas dos ataques de animais da região
                                 por Portal Brasil publicado       
                         O processo é ideal para as condições do semiárido
 
                 O processo é ideal para as condições do semiárido
 

Pesquisadores do Núcleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Nema/Univasf) desenvolveram e estão testando um modelo de recuperação da mata da caatinga. O experimento, iniciado no final de 2014, apresenta resultados positivos em uma área no município de Cabrobó (PE) e, se comprovado como eficiente, será implantado em áreas impactadas pelas obras do Projeto de Integração do Rio São Francisco.
O modelo de recuperação do bioma envolve o replantio de mudas, a conservação da água e a proteção das plantas dos ataques de animais da região. O processo é "simples, efetivo e de baixo custo", ideal para as condições do semiárido, afirma o coordenador do Nema, Renato Garcia, que sobrevoou o viveiro e aprovou os resultados parciais. 
Os pesquisadores plantaram, em uma área de aproximadamente 5 hectares ao lado da estação de bombeamento, mais de 5 mil mudas de 23 espécies nativas da caatinga, originárias de matrizes resistentes a estiagem prolongada. Além disso, cerca de 2 mil árvores adultas, de 25 espécies, fornecerão sementes. 
Para driblar a escassez de chuvas e conservar a pouca água disponível, a equipe do Nema criou bacias topográficas artificiais, escavadas com máquinas pesadas e com diâmetro entre 20 e 30 metros  as águas das chuvas escorrem para a depressão, o que facilita o seu acúmulo. 
Além disso, os pesquisadores montaram uma proteção contra três animais que normalmente se alimentam dessas plantas: bodes, carneiros e jegues, comuns da região. Cercas-vivas feitas de xique-xique, espécie de cacto com espinhos de até 10 centímetros, e macambira, um tipo de bromélia com espinhos pequenos e incisivos, mantêm os animais longe do espaço de recuperação de forma mais eficiente que as cercas de arames, geralmente depredadas ou furtadas. 
Projeto de Integração
Gerenciado pelo Ministério da Integração Nacional (MI), o Projeto de Integração do Rio de São Francisco é a mais relevante iniciativa do governo federal dentro da Política Nacional de Recursos Hídricos. O objetivo é garantir a segurança hídrica para 390 municípios no Nordeste Setentrional, onde a estiagem ocorre frequentemente, beneficiando mais de 12 milhões de habitantes.
Cerca de R$ 1 bilhão está sendo destinado a ações socioambientais e de recuperação arqueológica, o mais significativo volume de investimentos nessas áreas do semiárido. As ações desenvolvidas pelos 38 programas ambientais do projeto possibilitam cientistas e sociedade a aprofundar o conhecimento sobre a caatinga, sobre fauna, flora, aspectos econômico-sociais, arqueológicos e sociais de pequenas comunidades rurais, indígenas e quilombolas mapeados na área de impacto do projeto. 

(Fonte: Portal Brasil, com informações do Ministério da Integração Nacional) 
 
                                                    

O Mapa dos biomas brasileiros

O Mapa dos biomas brasileiros
Confira o mapa dos principais biomas da natureza brasileira

Um olhar sobre a natureza brasileira!

Clip de 3 minutos com fotos de natureza no Brasil por Daniel De Granville Photo in Natura

Tom da Caatinga

Tom da Caatinga - Rio São Francisco Parte I

Tom da Caatinga - Rio São Francisco Parte II

Tom Caatinga - Rio São Francisco Parte III

Tom da Caatinga - Ecologia Parte I

Tom da Caatinga - Ecologia Parte II


Vídeos: Assista aos episódios de "Guardiões da Biosfera"