quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Conheça o curso de sobrevivência na caatinga.


Assista ao vídeo com os futuros oficiais que estão se formando na Escola de Administração do Exército da capital baiana e que participam de um curso de sobrevivência na caatinga.
(Fonte: Globo News - Via Brasil)

72º Batalhão de Infantaria Motorizado é uma unidade de elite do Exército brasileiro sediada em Petrolina, sendo a única Unidade do Exército Brasileiro a formar o combatente para o ambiente operacional de caatinga.
Possui um Centro de Instrução de Operações na Caatinga, abrangendo uma área com aproximadamente 28.000 km². Preocupado com a questão ambiental, o batalhão preserva, desde a sua criação, uma vegetação de 3.000 km² inserida na área urbana de Petrolina, tendo também um parque zoobotânico, com uma grande variedade de representantes de fauna e flora do bioma caatinga, sendo 22 viveiros e mais de 40 espécies de vegetais. Em uma integração social, o parque que é aberto à visitação pública é constantemente visitado por alunos que desenvolvem pesquisas escolares e também por acadêmicos de entidades de ensino superior locais que desenvolvem projetos de pesquisa.
Um país como o Brasil que possui uma enorme variedade geográfica precisa ter combatentes aptos para operar em diferentes ambientes operacionais.
Como uma Força Armada moderna, o Exército Brasileiro mantem seus soldados preparados para o combate em diversos terrenos. Por isso, possui tropas especializadas no combate na selva, no pantanal, na caatinga, na montanha e em diversos tipos operações militares. Os combatentes são treinados exaustivamente para atuar de acordo com o ambiente em que estão inseridos, desta forma se pode garantir qualidade e êxito nas operações militares.
O combate na caatinga, já há muitos anos, vem sendo objeto de pesquisas e estudos por parte do Exército Brasileiro, com o objetivo de determinar as características que o diferenciam das operações desenvolvidas em outros ambientes operacionais.
O militar especializado no combate na caatinga deve conhecer as peculiaridades da região e adaptar-se a elas. Para isso existem dois tipos de adaptação, a ambiental e a de instrução. Na primeira, o combatente aprende a lidar com os rigores térmicos da região e com a escassez de água, características marcantes neste ambiente operacional. Os treinamentos dessa fase duram de 10 a 15 dias e, após esse período, o aluno já está perfeitamente ambientado às peculiaridades da região. Durante a segunda fase, o treinamento busca adequar o homem à área de operações, instruindo-o as peculiaridades do combate próprio da região seca e arida da caatinga e elevar o preparo psicológico necessário ao cumprimento das mais variadas missões no ambiente da caatinga. Entre as instruções ministradas neste período, especial enfase é dada a observação e orientação, tanto diurna como noturna; a capacidade de utilização de cobertas e abrigos para deslocamentos e ações militares; o reconhecimento operacional; a localização de alvos importantes; a utilização de estradas e demais vias de acesso à área de operações; os deslocamentos a pé, motorizados ou aeromóveis; e aos exercícios de combate e sobrevivência.
O 72 BIMtz abriga as instalações do Centro de Instrução de Operações na Caatinga (CIOpC) que situa-se em imóvel da União, conhecido por Fazenda Tanque do Ferro, jurisdicionado ao Ministério da Defesa , passando a ser chamado de Campo de Instrução Fazenda Tanque do Ferro (CIFTF.), responsável pela formação do Combatente de Caatinga. A vegetação é agressiva e espinhosa, o sol é causticaste o relevo é pouco ondulado, solos muitas vezes pedregoso, e, sobretudo com aglomerados humanos esparsos e uma grande escassez de água.
(Fonte: Wikipedia)



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Caatinga em doses quase homeopáticas


Livro que estimula uso sustentável do bioma foi lançado 
ontem  no Recife pelo Ministério do Meio Ambiente.

A proteção parece o caminho lógico para preservar a caatinga - ecossistema exclusivamente brasileiro. Mas não é o único. Usar a vegetação de maneira equilibrada também é uma solução. E começa a ser a nova bandeira do Ministério do Meio Ambiente (MMA) que lançou ontem, o livro Uso Sustentável e Conservação dos Recursos Florestais da Catinga. Reunindo estudos e pesquisas do bioma nos últimos 25 anos, a obra consolida a possibilidade da economia racional proteger o meio ambiente. A receita é simples: usar uma parte por vez para garantir sempre o todo.
Ecossistema exclusivamente brasileiro foi alvo de estudos específicos nos últimos 25 anos para lançamento de obra Foto: Plano de Ação Nacional de Combate a DesertificaçãoNum exemplo simplificado, a recomendação significa que um proprietário de terra deverá dividir o terreno para manter a vegetação se recuperando em um trecho enquanto a outra parte é cortada. Uma medida que também parece óbvia, mas foram necessários anos de estudos para identificar a viabilidade e o prazo de 15 anos como ideal entre um corte e outro de lenha. ´O livro reúne essas pesquisas e o tempo de 15 anos de espera foi consolidado. Pode parecer muito, mas, assim, o solo estará sempre sendo renovado`, disse a engenheira florestal do Serviço Florestal Brasileiro e uma das organizadoras do livro, Maria Auxiliadora Gariglio.
Os estudos também constataram o forte potencial de recuperação da caatinga e a capacidade acelerada de recomposição. Na Amazônia, onde o manejo sustentável já é praticado, os produtores precisam esperar até 30 anos para reutilizar o mesmo solo. ´As árvores de lá são maiores, produzem grandes toras e estacas. Essa é outra vantagem nossa`, ressaltou, lembrando que a produção de lenha e carvão é a principal responsável pelo desmatamento que modificou cerca de 80% do bioma no Nordeste. Um histórico que faz do manejo sustentável uma medida fundamental para a região, que emprega cerca de 700 mil pessoas no corte de madeira.
Com 367 páginas, o livro traz artigos de 28 pesquisadores de instituições de todo o Nordeste e órgãos nacionais, como o MMA. E a principal conclusão de todos os envolvidos é sobre a potencialidade da aplicação do manejo para a produção energética, criando uma alternativa sustentável para a área. ´A união entre a conservação e a produção de lenha é o resultado mais importante da obra`, afirmou Maria Auxiliadora. Ela também destacou que, além de garantir o respeito à capacidade de reprodução da vegetação, a prática possibilita a manutenção da biodiversidade de fauna e flora.
Em um dos capítulos, os pesquisadores analisaram a situação de anfíbios, répteis, mamíferos e abelhas, além da flora, localizados em uma área da caatinga no Ceará que já atua com manejo sustentável. O resultado surpreendeu até os especialistas com uma diversidade semelhante à encontrada em unidades de conservação. Gariglio esclareceu que o tipo de uso da caatinga, que costuma ser mais cortada do que queimada, também favorece as espécies. ´Os tocos permanecem e isso acelera a recuperação, além de continuar a abrigar as espécies da fauna`. A primeira edição do livro, 2 mil exemplares, será distribuída entre entidades de pesquisa e de proteção do meio ambiente. (Fonte: Diário de Pernambuco - Júlia Kacowicz)
Leia também: Sustentabilidade em pauta: novos livros sobre o tema


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Livro informa sobre o manejo sustentável na caatinga e será lançado em Recife (PE) no próximo dia 23.11(terça-feira).


Publicada pelo Serviço Florestal Brasileiro, a obra “Uso Sustentável e Conservação dos Recursos Florestais da Caatinga” reúne artigos sobre a importância e as possibilidades do manejo sustentável no bioma. Lançamento será no Recife Praia Hotel, localizado à Av. Boa Viagem, 09 – Pina, Recife (PE) às 15:30h.

A biodiversidade da caatinga possui um grande potencial econômico, que para ser benéfico para o homem e, também, para o meio ambiente precisa ser explorado de forma responsável. Oferecer informações a respeito do manejo sustentável no bioma é o grande objetivo do novo livro “Uso Sustentável e Conservação dos Recursos Florestais da Caatinga”.
Publicada pelo SFB – Serviço Florestal Brasileiro, do MMA – Ministério do Meio Ambiente, a obra reúne diversos artigos técnico-científicos, que são baseados em profundas pesquisas, a respeito da importância e das possibilidades sociais e econômicas do manejo florestal sustentável na caatinga.
Os textos foram produzidos por mais de 20 renomados especialistas no assunto, que são ligados a ONGs, universidades e, ainda, órgãos públicos regionais e nacionais, como a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e o Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.
O livro será lançado oficialmente no dia 23 de novembro, na cidade de Recife, em Pernambuco e, posteriormente, distribuído às bibliotecas da região e entidades parceiras do projeto. Aqueles que tiverem interesse em comprar um exemplar podem entrar em contato com o SFB pelo telefone (61) 2028-7258. (Fonte: Planeta Sustentável)

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Livro fotográfico registra luta em defesa do Velho Chico



Por Michelle Amaral

O fotógrafo João Zinclar lançou em Campinas (SP) o livro “O Rio São Francisco e as Águas no Sertão”. O trabalho é resultado de um ensaio fotográfico realizado entre 2005 e 2010.
Durante os cinco anos, o fotógrafo percorreu as margens do São Francisco em oito estados e registrou a cultura do povo ribeirinho e sua luta em defesa do rio.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Zinclar contou que a ideia de realizar o ensaio fotográfico surgiu com a intensificação das discussões e mobilizações contrárias à decisão do governo federal de realizar a transposição das águas do rio. “Senti necessidade e vontade política de contribuir nesse debate através da fotografia, nesse cenário de conflitos em torno do uso e controle das águas do Velho Chico”, conta.
O fotógrafo afirma que, apesar do início das obras, o conflito em torno do projeto da transposição continua. “É uma questão mal resolvida e que pode ter desdobramentos futuros”, explica. Nesse sentido, ele acredita que o livro possa contribuir no debate e luta em defesa do rio. “Esse livro é parte, expressão e identificação com aquele povo em defesa do rio e na luta pela terra naquela região”, resume.
O lançamento da obra foi acompanhado do debate “Água: Direito ou Mercadoria?”, que contou com a presença do diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, e assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e membro da Articulação Popular São Francisco Vivo, Terra, Água, Rio e Povo, Roberto Malvezzi, o Gogó.
Confira entrevista a seguir.

Como nasceu a idéia de produção do livro fotográfico?
João Zinclar: Esse livro é a conclusão de um ensaio fotográfico que vem sendo realizado desde 2005 até hoje no rio São Francisco e no sertão nordestino. É uma obra coletiva, pois contou com a valiosa contribuição de várias pessoas amigas, que escreveram textos que enriqueceram a publicação. A ideia de fotografar essa pauta surgiu com a intensificação das discussões e mobilizações do povo ribeirinho e dos movimentos sociais contrários à polêmica e equivocada decisão do governo federal de fazer a transposição das águas do São Francisco. Senti necessidade e vontade política de contribuir nesse debate através da fotografia, nesse cenário de conflitos em torno do uso e controle das águas do velho Chico. Antes de virar livro, essas fotos já foram expostas em vários lugares, serviram para estimular debates e ilustrar varias reportagens sobre a transposição, principalmente as realizadas pelo Brasil de Fato ao longo desses cinco anos. Esse livro é parte, expressão e identificação com aquele povo em defesa do rio e na luta pela terra naquela região.
Você poderia falar da experiência vivida no período em que percorreu o Rio São Francisco?
Conhecer melhor aquele povo, suas aspirações, sua cultura e suas lutas foi uma experiência rica em fundamentos. O contato e a interação nas beiradas do rio São Francisco com os povos tradicionais, indígenas, quilombolas, pescadores ribeirinhos, trabalhadores camponeses sem terra, pequenos agricultores, vazanteiros, em sua lutas por terra e água, fizeram ampliar meu entendimento sobre a luta de classes no Brasil. À sua maneira, esse povo contribui na linha de frente no conflito com o capital, resistindo e procurando construir alternativas à nova fase do avanço do agronegocio no campo e do capitalismo no Brasil.
Quais dificuldades você enfrentou no período de produção da obra?
Fui assaltado na estrada em Cabrobó (PE), juntamente com o jornalista e amigo Flaldemir Sant’ana. Sofri ameaças de morte fotografando carvoarias em Buritirama (BA). Tirando esses fatos indesejáveis, na verdade, não encontrei muita dificuldade, pois contei com apoios logísticos importantes de sindicatos de trabalhadores e pessoas amigas de Campinas (SP), cidade onde moro, e principalmente com a receptividade política, o desprendimento e a solidariedade ativa do povo lutador da bacia hidrográfica do Rio São Francisco e do sertão nordestino. Veio desse povo e de suas organizações políticas, sociais e pastorais, todo apoio necessário com transporte, alimentação e hospedagem, contatos e informações valiosas que ajudaram a compreender realidades pelos caminhos do velho Chico. Sem essa solidariedade seria impossível percorrer diversas vezes, os mais de 10 mil quilômetros rodados em 8 estados (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará) desde 2005.
O lançamento do livro será feito juntamente com um debate sobre a questão das águas no Brasil. Nesse contexto, qual a importância do livro?
Penso que os conflitos em torno da defesa, do uso e do controle sobre as águas têm importância estratégica nas lutas dos trabalhadores e dos povos no mundo. Isso não é diferente no Brasil. Esta questão expõe as contradições do sistema, baseado na exploração do trabalho e na transformação de tudo e todos em mercadorias que só têm valor se apropriadas privadamente. As riquezas naturais só são riquezas no capitalismo se pertencerem a alguém. Portanto, a água, a terra, a floresta, os vários biomas e seus recursos só têm valor se transformados em bens e serviços para venda. Assim, a luta necessária para garantir acesso de bens comuns a todos assume caráter de confronto anti-imperialista e anti-capitalista, extrapolando o caráter meramente ambientalista. “A guerra pela água em Cochabamba” na Bolívia, onde o povo boliviano rebelou-se contra a privatização da água naquela cidade por uma empresa estrangeira, e a luta contra a transposição do rio São Francisco no Brasil são provas cabais disso. Apesar da concretização do inicio das obras, entendo que o conflito e a controvérsia em torno do projeto de transposição continuam. É uma questão mal resolvida e que pode ter desdobramentos futuros. Creio que esse livro se insere nesse contexto.






segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Xique-xique é o fiel da balança em meio à terra rachada


A vida é assim. A desgraça de uns muitas vezes se transforma na fortuna de outros. No sol de quase dezembro, e após seis meses de estiagem, vaqueiros, sertanejos, criadores de gado, fazendeiros e outros ilustres personagens dessa história secular disputam o gado com os urubus. Não só o gado: também bodes e cabras. A plantação já foi perdida. O tempo não foi generoso e a caatinga reassumiu sua faceta mais estereotipada: terra rachada, carcaças de animais espalhadas pelos caminhos. Por essa época do ano, entre o sertanejo e os urubus, surge uma outra figura histórica para a caatinga. É o xique-xique, o fiel dessa balança.
Cena comum à época de estiagens no sertão nordestino, a queima de xique-xique é o recurso ao qual agricultores, como Paulo Assunção, em Santana do Matos, dispõem para escapar do magro rebanho. O xique-xique é antes de tudo um forte. Espinhoso, resistente e acostumado à aridez, o sodoro, como é mais comumente chamado por essas bandas, é uma das poucas plantas a conseguir sobreviver à seca. Como não choveu, não há pasto. Mas o gado obviamente precisa comer. É nesse descompasso que o xique-xique se insere e ganha ares de personagem principal. Tentando evitar ao máximo enriquecer ainda mais os urubus, o sertanejo começa a queimar o sodoro para substituir o pasto e a ração, já escassas após o sexto mês de seca. Alguns mais abastados conseguem misturar com farelo ou pasta. Outros dependem exclusivamente do xique-xique.
Passa das 10h em Santana do Matos. O azul do céu limpíssimo, apesar de bonito, aterroriza. É sinal de calor. Aboletados em uma pequeno almoxarifado, três homens, sendo um mais moço e dois mais velhos, assistem ao espetáculo do sodoro. O xique-xique foi guardado em grandes montes à espera da forrageira. A massa verde atravessa a máquina para se transformar numa pasta aquosa e sem cheiro. A pasta é recolhida do chão e vai parar nos pastos, sozinha ou acompanhada. Caso haja ração para a mistura, a vida do sertanejo fica um pouco mais leve. Só é necessário preparar a “iguaria” uma vez por dia. Sem ração, a mistura fica fraca. E o trabalho aumenta. “Eu preciso passar o dia quase todo queimando o sodoro, porque ele não tem força para manter o gado. Então, o gado precisa passar o dia inteiro comendo ou então fica fraco e pode morrer”, diz José Silveira Braga Filho, de 29 anos, acrescentando que um saco de ração custa cerca de R$ 50. “Com o passar do tempo, a seca vai deixando a ração mais cara. Quanto mais difícil o pasto, mais cara a ração”, complementa José Silveira Braga, o pai, que tem 69 anos e já queimou muito sodoro na vida.
A família Silveira Braga tem 20 cabeças de gado, sendo 10 bezerros, o que torna o ofício de queimar xique-xique penoso, mas não impossível. “Já passei 14 meses sustentando o gado apenas no xique-xique”, diz o Silveira Braga mais velho. Filho e pai se revezam em frente à forrageira e conseguem alimentar o gado apenas com a planta. Nos arredores do sítio Quixaba, em Santana do Matos, há produtores com mais de 100 animais. Dessa maneira, é impossível alimentar todos apenas com a queima do sodoro. E os animais vão morrendo.
Na Fazenda Serra do Gado, mais de 20 animais morreram. Os arredores da casa principal, onde José Carlos Soares toma de conta da pecuária, se transformaram nos últimos meses num cemitério de animais. Há pouco mais de cem metros do curral principal estão sete cadáveres de vacas , alguns já reduzidos a ossos, outros ainda motivo de festa para os urubus. Os proprietários da fazenda tiveram de recorrer a uma medida extrema. Contrataram caminhões e levaram a maior parte do gado para outra terra, na Paraíba. Muitas vacas não tiveram força para subir no caminhão. Essas vão morrendo com o passar do tempo.
Um detalhe é indispensável nesse contexto. Falta pelo menos mais quatro meses sem chuvas significativas no sertão potiguar. Esse prognóstico é otimista. Parte do pressuposto que haverá um bom inverno em 2011. Nem todos os agricultores e criadores de gado pensam dessa forma. “Se o próximo ano for do mesmo jeito, vou perder todo o meu rebanho”, diz o Silveira Braga mais novo.

Alimento pouco nutritivo para o gado

Enquanto a chuva não chega, há muito xique-xique para cortar e levar ao fogo. A planta vai assumindo um papel cada vez mais importante ao ponto em que o pasto vai rareando por aquelas paragens. A medida emergencial tem os seus contras: é um produto pouco nutritivo para as rezes, o que causa uma diminuição na produção de leite, além de, com o enfraquecimento do gado, poder até matar; e ainda por cima possui um processo bastante penoso para o trabalhador rural. Tanto que, na maioria dos casos, não há como terceirizar o serviço, a não ser que o proprietário esteja disposto a pagar entre R$ 30 e R$ 50 a diária do trabalhador. A maioria dos criadores não tem como sustentar sequer um mês a esse preço.
Paulo Xavier prepara todos os dias xique-xique para suas 15 cabeças de gado. É preferível começar o trabalho à tardinha, quando o sol castiga menos e o calor por consequência é menor. Mas nem sempre acontece assim. Há quem prepare a ração improvisada durante o dia inteiro, como também há quem escolha momentos estratégicos durante o dia. Por ocasião da visita da reportagem a Santana do Matos, Paulo Xavier preferiu iniciar o processo às 16h.
O primeiro passo é cortar o xique-xique em grandes pedaços, com uma foice ou uma roçadeira. Como se sabe, trata-se de uma planta cheia de espinhos, o que torna impossível o manuseio com as mãos. O sertanejo improvisa um gancho, através do qual consegue manusear a planta. A queima e si varia. O objetivo desse passo é retirar os espinhos da planta, os quais impossibilitam a ingestão do sodoro pelo gado. Métodos mais “modernos” usam um maçarico, mas desde sempre o processo tem seguimento com as “coivaras”, grandes fogueiras onde o sertanejo “assa” o xique-xique até que ele fique liso.
As duas maneiras têm diferenças importantes para quem conduz o processo. O grande problema é o calor. Ora, o sertão já é suficientemente quente e alguns minutos diante de uma fogueira é o bastante para produzir uma insuportável sensação de calor. Com o maçarico, o sertanejo tem a escolha de parar o processo quando lhe der vontade, ou quando a temperatura atingir níveis difíceis de agüentar. Já nas “coivaras” isso não é possível. É preciso aproveitar a lenha, na maioria das vezes galhos secos encontrados ao redor.
A demonstração apresentada por Paulo Xavier foi à moda antiga. Os sodoros estavam amontados no chão e o gancho era encarregado de levá-los até a fogueira, onde cada planta demora poucos minutos. Quando o xique-xique entra em contato com o fogo, as labaredas assumem um tom esverdeado, aos poucos substituído pelo amarelo e pelo laranja. Ao passo em que o monte de sodoros cortados vai dando lugar aos galhos pintados de preto pelo fogo, é hora de carregar a carroça e levar o apurado do dia para o curral.
Contudo, o trabalho não terminou por aí. Os galhos queimados precisam passar pela forrageira para chegar à forma comestível para as rezes. Em dias normais, dizem os sertanejos, o gado não comeria aquela mistura insossa. Mas até mesmo os animais sentem que não há escolha. Ou comem sodoro ou são admitidos no banquete macabro dos urubus.

Animais são os primeiros a serem atingidos pela seca

A convivência com a seca é um tema recorrente no Brasil há muito tempo. Fala-se de tudo: caminhões-pipa, cisternas, transposição de rios, construção de açudes, etc. A lista de supostas panacéias é infindável, porém insuficiente. O que se percebe andando pelo sertão do Rio Grande do Norte é a dificuldade dos sertanejos em lidar com o temperamento da natureza. Os animais são os primeiros atingidos, mas não os únicos. Em algumas localidades, é difícil conseguir água até mesmo para o consumo humano.
Quando se pensa nesse assunto, melhor relativizar o estereótipo do sertanejo miserável e faminto. Miséria existe, mas não é tão fácil encontrar sertanejos comendo palma e preás como há tanto é alardeado pela imprensa nacional. Por mais pobre que seja a comunidade, sempre existem aposentados e beneficiários do bolsa-família para sustentar a casa. O que acontece é o sucessivo empobrecimento dessas famílias e a dependência sem fim desses programas de assistência.
No assentamento Jucá, município de Pedro Avelino(Região central), a dificuldade é manter a água para a própria comunidade, formada por 10 casas. Tudo ali é fruto de financiamento governamental. A começar pelas casas, a aquisição do terreno, os animais para criação e as cisternas consideradas a solução dos problemas. Como não choveu, as cisternas ficaram vazias. É normal que uma cisterna de 18 mil litros seja suficiente para manter o consumo de uma família durante um ano. Contudo, naquelas paragens é tamanha a aridez que as pessoas dividem a água com o gado.
Nesse caso, a única solução é comprar água por carrada. Custa R$ 80 cada caminhão que vai para o Jucá. Somente este mês foram sete, o que aperta o orçamento das famílias. Ora, a principal atividade é a criação de caprinos – bodes e cabras – e esta mesmo não vai muito bem. O rebanho praticamente foi reduzido pela metade. O pasto está repleto de carcaças ao ponto de, em minutos, os criadores conseguirem juntar cinco cabras mortas para uma fotografia.
Francisco Carlos da Silva, tesoureiro da associação que gere o assentamento, conta que a única alternativa é se virar com bicos e o dinheiro do bolsa-família. No assentamento, não há aposentados. Para os próximos anos, a construção de duas grandes cisternas é apontada como uma possível solução. O açude que há por ali fica longe e não há tubulação. A proliferação de cisternas faz parte de um programa do Governo Federal. São mais de 300 mil em todo o país. Em municípios pequenos, como Pedro Avelino, Santana do Matos, Lajes, entre outros da região central, há entre 300 e 500 cisternas por cidade. É pouco quando se compara ao universo total de agricultores e criadores de gado. Outro ponto importante para a vida no sertão – os carros-pipa – sofrem com a politização. Quando o programa executado pelo Exército não chega a todos, a água vira moeda política. Um capital utilizado para conseguir votos nas regiões mais distantes.
(Fonte: Tribuna do Norte - Por Isaac Lira)



sábado, 13 de novembro de 2010

Personagens da Caatinga: BOIADEIRO SOU REI.



Neste filme maravilhoso uma câmera acompanha a vida de alguns vaqueiros no interior do Piauí.
Segundo o cineasta, Carlos Tourinho, o filme foi baseado em Os Sertões de Euclides da Cunha.O filme foi produzido em película 35mm em 1978 no estado do Piauí. Na época existia a " Lei do Curta" que anexava um documentário ou um curta com temática cultural nacional, a um filme estrangeiro. O propósito da lei, que era de reserva de mecado, era mostrar também ao Brasil, que temos boas cabeças pensantes na área do audiovisual. Tourinho disse que "antes de começar as filmagens, andei com eles durante uns três dias acompanhando e ajudando no dia a dia.

Gente simples, que a única ambição era de cuidar da fazenda que não era sua e criar os filhos dando uma oportunidade melhor. O vaqueiro que cai do cavalo na vaquejada, realmente morreu.
Assim que puder, voltarei a fazenda para ver como vai a vidade deles e quem sabe, dar continuidade a história dos vaqueiros.. São mais de 30 anos de história". A música é do Quinteto Violado. (Fonte: YouTube).

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Obras de ferrovia e transposição dão novo fôlego a Salgueiro no sertão de Pernambuco.


Canal de aproximação do eixo Leste com o Rio São Francisco
(Foto: A Tarde)

Dez Anos depos, município de Salgueiro deixa de ser capital do Polígono da Maconha
 para ter nova cara e economia fortalecida.


Há dez anos, o município de Salgueiro, encravado no Sertão pernambucano, a 514 quilômetros do Recife, era conhecido apenas por ser a capital do Polígono da Maconha. No início do ano 2000, os governos federal e estadual se uniram em uma megaoperação batizada de Mandacaru para erradicar o tráfico na região. O objetivo não foi alcançado, mas a mobilização policial e militar da época desarticulou momentaneamente os barões da droga e fez a economia de Salgueiro estagnar. Sem o dinheiro gerado pela maconha, concessionárias fecharam, a agricultura perdeu força e a rede hoteleira diminuiu o número de leitos. A partir de 2007 e mais fortemente nos últimos dois anos, obras bilionárias como a transposição do Rio São Francisco e a Ferrovia Transnordestina mudaram a cara do município, que hoje se transformou num dos polos de desenvolvimento mais promissores do País.
Os canteiros de obra da Transnordestina e da transposição geram sete mil empregos diretos em Salgueiro e municípios próximos. Com a conclusão da Ponte do Ibó, no ano passado, a cidade passou a ficar a menos de 600 quilômetros de todas as capitais do Nordeste (com exceção de São Luiz). Uma viagem de Salvador a Fortaleza, por exemplo, ficou 240 quilômetros mais curta após a finalização da ponte. Sem a necessidade de desviar até Petrolina, para atravessar o Rio São Francisco, os caminhoneiros agora cruzam o Nordeste via BR-116, economizando tempo e combustível. Com a conclusão da Transnordestina, em 2012, Salgueiro vai estar no meio do maior entroncamento ferroviário e rodoviário da região.
“Estamos vivendo um novo momento em Salgueiro. Teremos aqui uma plataforma logística multimodal (porto seco) que vai aproveitar nossa localização privilegiada no Nordeste. São 262 hectares que também vão possibilitar a instalação de um distrito industrial, criando um polo perene de geração de empregos, mesmo com o fim das obras da transposição e da Transnordestina”, explicou o prefeito de Salgueiro, Marcones Sá (PSB).
Em 2000, Marcones Sá era vereador de Salgueiro. Ele recorda bem como a cidade era conhecida. “Na época da Operação Mandacaru, tínhamos chegado ao fundo do poço. Aquela mobilização concentrou em Salgueiro uma mídia negativa, que existia de forma dispersa em todo o Sertão. Foi preciso quase uma década para que superássemos essa fase”, observou o prefeito.
Além de principal distribuidor de maconha do Sertão, o município de Salgueiro era um dos mais violentos da região. A BR-116 era palco constante de assaltos. “No início da década, registrávamos assaltos praticamente toda semana nas rodovias da região. No ano passado, esse número caiu para 18 casos, incluindo as tentativas”, detalhou o porta-voz da Polícia Rodoviária Federal, Eder Rommel.
A Polícia Federal instalou uma delegacia na cidade em março de 2000. A partir daí, as operações de erradicação de plantios passaram a obedecer a um calendário rígido para quebrar economicamente os traficantes. “Não é possível medir a produção de maconha, por motivos óbvios, mas estou aqui em Salgueiro desde 2006 e percebo que a quantidade da droga em circulação está em decréscimo”, atestou o delegado federal Cristiano de Oliveira Rocha.
No quesito homicídios, a Polícia Civil anota a maior vitória de Salgueiro. A área de segurança integrada que reúne o município e mais seis cidades vizinhas é a mais pacífica do Estado. No ano passado, ocorreram 33 assassinatos na região, este ano foram 16. “Estamos com mais de 50% de redução no número de homicídios em 2010”, comemorou o delegado seccional de Salgueiro, Marlon Frota.
(Fonte: Jornal do Commercio - Por Eduardo Machado)

sábado, 6 de novembro de 2010

Personagens da Caatinga: Bode Rei, Cabra Rainha.


No semi-árido brasileiro, no ambiente da Caatinga, é costume dizer-se que não é o homem quem cria o bode, mas o bode que cria o homem. Diz-se também, que porco, galinha e bode são a poupança do pobre e que do bode se aproveita até o berro.
O sertão nordestino é o império do bode e da cabra. Ali, eles são os principais provedores de proteína animal para a maioria da população. Apesar de totalizarem cerca de 11 milhões de animais, sendo fundamentais para a sobrevivência das famílias que ainda resistem nas áreas rurais, os caprinos permanecem na clandestinidade da economia do país. Desde a antiguidade sabe-se que bodes e cabras são excelentes para produzir para o homem: leite, pele e carne, nessa ordem. Depois de quase 500 anos vivendo em sua poderosa invisibilidade, os milhões de cabras e bodes espalhados pelo Brasil começam a aparecer. BODE REI, CABRA RAINHA é um documentário onde os personagens principais são os bodes e as cabras; os coadjuvantes, seus humanos companheiros; e o cenário, a paisagem cultural e física do Nordeste brasileiro.
(Título da obra: Bode rei, cabra rainha / Ano da produção: 2008 / Cidade/ Estado: / Duração: 48 min / Produção: Super Filmes). Fonte: YouTube.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Serviço Florestal lança livro sobre recursos florestais da Caatinga.


O Serviço Florestal Brasileiro (SBF), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), está lançando o livro Uso Sustentável e Conservação dos Recursos Florestais da Caatinga. A obra reúne artigos técnico-científicos resultados de 25 anos de pesquisa. Os estudos foram rigorosamente atualizados e consolidados por mais de 20 autores (pesquisadores e técnicos), de universidades regionais, órgãos estaduais de meio ambiente, organizações não-governamentais, além da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
De acordo com o chefe da Unidade Regional Nordeste do SFB, Newton Barcellos, o livro considera a relevância do manejo sustentável das florestas da Caatinga para o desenvolvimento econômico e social do Semiárido, bem como, sua influência sobre os meios de vida da população. "Esse bioma tem um grande potencial de exploração, que urge por acontecer de modo sustentável, devido à inegável dependência econômica das comunidades locais, seja por meio do abastecimento com energéticos florestais para indústrias, estabelecimentos comerciais e domicílios, ou da comercialização e do beneficiamento de produtos não-madeireiros, como frutos e palhas, por exemplo", avalia Barcellos. A publicação será lançada oficialmente no próximo dia 23 de novembro, às 15h50, no Recife Praia Hotel, em Recife (PE).
(Fonte: Por Aline Guedes - Insa)

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