Precisamos de árvores. É simples!


Na margem de um rio em Gravatá (PE,) uma muda espera
o tempo transformá-la em mata ciliar

Mudanças climáticas são um assunto muito complexo, muito complicado mesmo. Mas, se a gente tentar simplificar, a coisa básica é a seguinte: plante árvores que melhora.
Não que seja uma solução mágica que acaba com todos os problemas. Longe disso. Mas o plantio de árvores, se feito com espécies adequadas, nativas, e nos lugares certos, pode ajudar a aliviar muitos dos efeitos das mudanças climáticas.
O Nordeste do Brasil é um ótimo exemplo disso. As mudanças climáticas cercaram a região. Do interior, vem o aumento de temperatura e, consequentemente, de evaporação, tirando o “semi” do semi-árido. Do oceano, vem a água do mar, comendo a costa, demolindo casas, arrastando árvores. Entre os dois, correm os rios, cada vez mais assoreados, cada vez mais ocupados, cada vez transbordando com mais frequência.
Pois bem. Plante árvores que melhora.
Melhora em parte porque árvores nada mais são do que a solidificação do carbono que está sobrando na atmosfera e tapando a Terra como uma panela de pressão. Árvores, quando crescem, tiram carbono do ar. Árvores são feitas de carbono.
Mas esse efeito é lentíssimo. O carbono tirado da atmosfera hoje só vai resultar em refresco daqui a meio século. Nesse meio tempo, muita seca, muita enchente, muita tragédia e muito prejuízo vai acontecer no Nordeste por causa das mudanças climáticas.
Acontece que plantar árvores do jeito certo tem outros efeitos positivos que, esses sim, são imediatos, ou quase.
Árvores no semi-árido conservam a parca água da chuva e protegem o solo. "O principal indicador que detona o processo de desertificação é a retirada da cobertura vegetal, principalmente das árvores", diz o engenheiro Iedo Sá, da Embrapa Semi-Árido, em Petrolina. "A árvore forma o manto que cobre essa região. Quando você a retira, tudo que há de ruim acontece", afirma ele. O solo fica exposto aos elementos. O sol mata microorganismos e frita nutrientes. A água escorre, levando com ela a camada superficial da terra. "É o que chamamos de erosão laminar, que é a perda dos centímetros superiores da superfície do solo", diz Iedo. "Trata-se de um tipo discreto de erosão, quase invisível. Mas é o mais nocivo que existe." Para piorar, o sol inclemente faz essa água evaporar, deixando para trás sais minerais. Isso salga a terra, matando a fertilidade. Assim a desertificação se espalha. Iedo, que é especialista em desertificação, afirma que o único remédio é trazer a caatinga de volta. "A caatinga leva pelo menos 10 anos para crescer de volta – o dobro se o processo de desertificação estiver mais avançado", diz. Além disso, árvores dão frutas e sombra, que, num ambiente mais tórrido, podem salvar vidas de animais e humanos.
Árvores nas beiras dos rios seguram o solo no lugar, reduzindo o assoreamento e, consequentemente, as enchentes e o avanço do mar. "Árvores funcionam como um 'buffer' para a água que escapa dos rios", diz o Hidrólogo Abelardo Montenegro, da Universidade Rural de Pernambuco, usando a palavra em inglês para algo que diminui ou absorve o choque de um impacto (por exemplo, um pára-choque). Os troncos, as folhas e a terra oferecem obstáculos irregulares para a água das enchentes, freiando seu avanço. Além disso, fazer crescer florestas nas margens, onde hoje há bairros densamente povoados, daria espaço para a água se espalhar e preveniria que as enchentes resultassem em destruição e mortes.
Árvores de mangue têm um efeito parecido no litoral: impedem o assoreamento e dão espaço para o mar avançar, evitando que ele coma a costa. "Mais do que tudo, elas absorvem o impacto das ondas, em vez de deixar que elas se choquem com a costa mais ao norte", diz Moacir Araújo, professor de oceanografia da UFPE. "O problema é que os manguezais da costa nordestina foram devastados para dar lugar a empreendimentos imobiliários ou econômicos, como o porto de Suape", diz. "Se queremos uma solução mais permanente para o problema do avanço do mar, teremos que repensar a ocupação humana na costa, talvez até reconstituindo alguns manguezais.
Há pelo Nordeste alguns programas importantes de reflorestamento. No sertão, o PNUD, agência da ONU para o desenvolvimento, tem financiado grandes projetos. Na região do Araripe, a mais degradada do sertão por causa da necessidade de lenha da indústria gesseira, a Embrapa e o Sebrae estão bastante envolvidos na criação de "florestas energéticas". "São áreas de manejo que fornecem lenha para os fornos de gesso sem implicar em desmatamento", diz Iedo.
Mais complicado é rever a ocupação do espaço: por exemplo, mudar de lugar bairros que estão muito perto de rios e da costa para dar lugar a matas. "Ninguém quer sair de suas casas, a não ser que não tenha alternativa", diz Adriano Dias, pesquisador de adaptação às mudanças climáticas na Fundação Joaquim Nabuco. Vimos algumas iniciativas tímidas em cidades mais ricas, como a pernambucana Gravatá. Lá a prefeitura criou um parque turístico para preservar um trecho de caatinga e está promovendo a plantação de mudas em áreas públicas à beira dos rios – estudantes universitários plantam as mudas e, em troca, ganham transporte gratuito para as aulas. "Fazemos isso onde podemos, mas remover bairros para plantar árvores não está em cogitação", diz Aarão Lins, secretário do meio ambiente da cidade.
Claro que um grande programa de reflorestamento seria o ideal. Mas, na impossibilidade do ideal, uma árvore a mais, plantada do jeito certo numa dessas áreas estratégicas (o semi-árido, as margens dos rios, a costa), já é bem mais que nada.
(Fonte: Estadão.com.br - Isso não é normal)

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