Floresta do Araripe - Autor: João VitalA agricultora familiar Sandra Maria Souza, 34 anos, recebeu a visita dos técnicos e mudou a forma de adquirir lenha. “Antes, como não era manejado, a gente tirava em qualquer canto da fazenda. Agora, sai de um lugar medido, calculado”, afirma. Ela também aprendeu a cortar os pedaços de lenha no mesmo tamanho e a deixá-los sem pontas ou galhas. As mudanças ajudam a negociar o preço do produto. “A madeira sai com nota; com isso, a gente pode bater o pé e vender por R$ 11 o metro cúbico”, acrescenta. Na ilegalidade, a mesma madeira é comercializada por R$ 5.
Sandra, que também é presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais do Assentamento Vila Bela, em Serra Talhada, a 345 km de Recife diz que, sem o esclarecimento de técnicos, a tendência é de retirar toda a cobertura florestal. “Existem pessoas que pensam apenas em desmatar, criar vaca ou tocar fogo. Mas fomos informados de que, se continuasse o desmatamento, um dia a gente não ia ter lenha”, afirma.
Para o engenheiro florestal Franz Pareyn (ex-Coordenador do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Caatinga - CERBCAA/PE) que lidera a iniciativa por meio da Associação Plantas do Nordeste, o manejo da Caatinga é ainda uma forma de proteger os recursos naturais. Se juntarmos, dentro de uma propriedade, a área passível de manejo sustentável, a reserva legal – que em Pernambuco não pode ser manejada, mais as áreas de proteção permanente, chegamos a cerca de 60% de cobertura florestal protegida.
“O manejo tem um papel muito grande para a conservação da biodiversidade e combate à desertificação com custo zero para o estado”, diz. Em Pernambuco existem cerca de 500 assentamentos, dos quais, estima Pareyn, 100 deles teriam tecnicamente potencial para fazer manejo.
Além de ser uma forma de complementar a renda – em geral, os assentados praticam agricultura para a própria subsistência e criam pequenos animais – o engenheiro florestal diz que o manejo traz mais perspectivas para os agricultores. “O manejo é uma forma alternativa para fixar o homem no campo. O assentado consegue viver da propriedade e, assim, cumprir o objetivo para o qual foi feita a reforma agrária.”
Manejo florestal sustentável – Trata-se de uma forma de explorar a vegetação de forma a manter sempre uma parcela de cobertura vegetal para uso posterior, ao invés de derrubar todas as árvores. Na Caatinga, o manejo acontece de forma peculiar. A área, em geral de 20% a 25% da propriedade, é divida em talhões, cada um para uso em um ano, em seqüencia. Quando acaba o ciclo, volta-se ao primeiro talhão, que já estará recuperado.
Energy Globe Award – As técnicas de manejo sustentável da Caatinga renderam reconhecimento internacional. A Associação Plantas do Nordeste ganhou em abril o Prêmio Energy Globe Award, devido às atividades com os assentados no semi-árido, realizadas desde 2006. Esse prêmio é um dos mais importantes do planeta no tema.
Expansão – A experiência bem-sucedida em Pernambuco será estendida à Paraíba. Ainda este ano, mais oito assentamentos receberão apoio técnico, mas a intenção do chefe da Unidade Regional do Nordeste, do Serviço Florestal, Newton Barcellos, é ampliar a iniciativa. “Nossa prioridade absoluta é dar continuidade e expandir o manejo florestal comunitário para os demais estados”, diz ele, que assumiu o cargo em junho.
À frente da entidade, Barcellos, que formou-se mestre em Extensão Rural na Grã-Bretanha, pretende ainda aumentar a atividade de pesquisa sobre a Caatinga com a elevação do número de parcelas permanentes do bioma, objeto de estudo pela Rede de Manejo Florestal da Caatinga.
Hoje, existem 70 dessas parcelas, onde a vegetação não sofre interferência do homem, concentradas na Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. “A Caatinga da Bahia é diferente da do Rio Grande do Norte. Queremos ampliar o número de parcelas e estudar a dinâmica de recuperação e regeneração da caatinga”, diz.
A Unidade Regional do Nordeste vai também buscar as informações florestais da Região com as superintendências do Ibama e órgãos ambientais dos estados para alimentar o Portal de Gestão Florestal do Serviço Florestal Brasileiro. “Podermos conhecer qual a área manejada, quantos planos de manejo foram aprovados e ter dados sobre a supressão de vegetação.”




