Manejo Florestal aumenta renda em assentados da Caatinga

Floresta do Araripe - Autor: João Vital

Ação do Serviço Florestal Brasileiro com moradores do interior de Pernambuco tem permitido que 13 assentamentos da reforma agrária, que abrigam 238 famílias, em 8,7 mil hectares, obtenham outra fonte de renda com o uso sustentável da Caatinga. As pessoas atendidas recebem apoio técnico para fazer o manejo da Caatinga.
A agricultora familiar Sandra Maria Souza, 34 anos, recebeu a visita dos técnicos e mudou a forma de adquirir lenha. “Antes, como não era manejado, a gente tirava em qualquer canto da fazenda. Agora, sai de um lugar medido, calculado”, afirma. Ela também aprendeu a cortar os pedaços de lenha no mesmo tamanho e a deixá-los sem pontas ou galhas. As mudanças ajudam a negociar o preço do produto. “A madeira sai com nota; com isso, a gente pode bater o pé e vender por R$ 11 o metro cúbico”, acrescenta. Na ilegalidade, a mesma madeira é comercializada por R$ 5.
Sandra, que também é presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais do Assentamento Vila Bela, em Serra Talhada, a 345 km de Recife diz que, sem o esclarecimento de técnicos, a tendência é de retirar toda a cobertura florestal. “Existem pessoas que pensam apenas em desmatar, criar vaca ou tocar fogo. Mas fomos informados de que, se continuasse o desmatamento, um dia a gente não ia ter lenha”, afirma.
Para o engenheiro florestal Franz Pareyn (ex-Coordenador do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Caatinga - CERBCAA/PE) que lidera a iniciativa por meio da Associação Plantas do Nordeste, o manejo da Caatinga é ainda uma forma de proteger os recursos naturais. Se juntarmos, dentro de uma propriedade, a área passível de manejo sustentável, a reserva legal – que em Pernambuco não pode ser manejada, mais as áreas de proteção permanente, chegamos a cerca de 60% de cobertura florestal protegida.
“O manejo tem um papel muito grande para a conservação da biodiversidade e combate à desertificação com custo zero para o estado”, diz. Em Pernambuco existem cerca de 500 assentamentos, dos quais, estima Pareyn, 100 deles teriam tecnicamente potencial para fazer manejo.
Além de ser uma forma de complementar a renda – em geral, os assentados praticam agricultura para a própria subsistência e criam pequenos animais – o engenheiro florestal diz que o manejo traz mais perspectivas para os agricultores. “O manejo é uma forma alternativa para fixar o homem no campo. O assentado consegue viver da propriedade e, assim, cumprir o objetivo para o qual foi feita a reforma agrária.”
Manejo florestal sustentável – Trata-se de uma forma de explorar a vegetação de forma a manter sempre uma parcela de cobertura vegetal para uso posterior, ao invés de derrubar todas as árvores. Na Caatinga, o manejo acontece de forma peculiar. A área, em geral de 20% a 25% da propriedade, é divida em talhões, cada um para uso em um ano, em seqüencia. Quando acaba o ciclo, volta-se ao primeiro talhão, que já estará recuperado.
Energy Globe Award – As técnicas de manejo sustentável da Caatinga renderam reconhecimento internacional. A Associação Plantas do Nordeste ganhou em abril o Prêmio Energy Globe Award, devido às atividades com os assentados no semi-árido, realizadas desde 2006. Esse prêmio é um dos mais importantes do planeta no tema.
Expansão – A experiência bem-sucedida em Pernambuco será estendida à Paraíba. Ainda este ano, mais oito assentamentos receberão apoio técnico, mas a intenção do chefe da Unidade Regional do Nordeste, do Serviço Florestal, Newton Barcellos, é ampliar a iniciativa. “Nossa prioridade absoluta é dar continuidade e expandir o manejo florestal comunitário para os demais estados”, diz ele, que assumiu o cargo em junho.
À frente da entidade, Barcellos, que formou-se mestre em Extensão Rural na Grã-Bretanha, pretende ainda aumentar a atividade de pesquisa sobre a Caatinga com a elevação do número de parcelas permanentes do bioma, objeto de estudo pela Rede de Manejo Florestal da Caatinga.
Hoje, existem 70 dessas parcelas, onde a vegetação não sofre interferência do homem, concentradas na Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. “A Caatinga da Bahia é diferente da do Rio Grande do Norte. Queremos ampliar o número de parcelas e estudar a dinâmica de recuperação e regeneração da caatinga”, diz.
A Unidade Regional do Nordeste vai também buscar as informações florestais da Região com as superintendências do Ibama e órgãos ambientais dos estados para alimentar o Portal de Gestão Florestal do Serviço Florestal Brasileiro. “Podermos conhecer qual a área manejada, quantos planos de manejo foram aprovados e ter dados sobre a supressão de vegetação.”

Comentários

  1. Insa e Serviço Florestal Brasileiro discutem alternativas para preservação da Caatinga

    (24/07/2009) Da Redação


    Os diretores do Insa - Instituto Nacional do Semiárido, Roberto Germano Costa, e do Serviço Florestal Brasileiro, Luiz Carlos Joels, reuniram-se na quinta-feira (23/07), na Paraíba, para discutir alternativas de parceria entre as duas instituições, principalmente no que se refere ao manejo florestal sustentável da Caatinga.

    De acordo com Joels, será realizado um esforço conjunto para reforçar a já existente Rede de Manejo Florestal da Caatinga, que precisa ter maior interação com o Ministério de Ciência e Tecnologia. A ideia surgiu após a identificação da convergência de interesses e missão institucional do Insa e do SBF, que é ligado ao Ministério do Meio Ambiente.

    “Nós vamos trabalhar em conjunto, elaborando um plano de trabalho para encontrar formas de expansão da rede, tanto em termos de participantes como em ações. O objetivo é mobilizar universidades, instituições de pesquisa, secretarias estaduais de meio ambiente e órgãos ligados ao setor de energia da região, já que aproximadamente um quarto da energia do Nordeste é proveniente da exploração da Caatinga”, enfatizou Joels.

    Nos próximos dias, representantes do Insa e do SBF voltarão a se reunir para definir uma agenda de trabalho comum, bem como a governança da rede. O termo de cooperação entre as instituições envolvidas será assinado, em outubro, num evento organizado em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Após a finalização do plano será feita uma divulgação para congregar as entidades interessadas no assunto.

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