Carvoarias degradam as pessoas e o meio ambiente

Cada caminhão carregado de carvão representa 150 m3
de mata nativa desmatada. (Foto: João Zinclar.)

Presença marcante nos municípios baianos de Barra, Buritirama, Morpará e Muquém do São Francisco, na região do Médio São Francisco, as carvoarias destroem o meio ambiente, exploram trabalhadores e põem em risco as comunidades tradicionais. O principal alvo é o bioma Caatinga, que está sendo devastado, com significativa perda da biodiversidade.

Esta devastação está sendo promovida por carvoeiros de outras regiões da Bahia, ou mesmo de outros estados como Minas Gerais, que é o destino final do carvão, cujo objetivo é alimentar as usinas siderúrgicas mineiras. Da mesma forma, os trabalhadores vêm de diferentes regiões e estão sujeitos a um trabalho superexplorado e, muitas vezes, análogo ao escravo. As atividades variam desde o desmatamento, a construção dos fornos, a carbonização (transformação da lenha em carvão), o ensacamento e o carregamento dos caminhões. Nos municípios citados são conhecidas, pelo menos, cinco grandes carvoarias com centenas de fornos cada uma. Uma das maiores da região possui oficialmente 540 fornos, mas está em processo de ampliação.

Existem também pessoas da própria região que vendem a sua força de trabalho para as carvoarias, a fim de promover uma complementação de renda. O pagamento por produção é uma regra geral na região, onde são fixados valores de referência subestimados para cada serviço, fazendo com que os trabalhadores pratiquem uma jornada mais longa em busca de maiores rendimentos. Em uma carvoaria de Morpará, por exemplo, paga-se R$ 5,00/m³ de lenha, sendo que um trabalhador consegue retirar, com muito esforço, 4 m³ por dia. Aqueles que trabalham na queima da lenha recebem R$ 15,00 para encher o forno e R$ 7,50 para esvaziar (retirar o carvão). Merece destaque o fato de que o carvão é retirado com os fornos ainda quentes, para que sejam imediatamente preenchidos novamente. Além disso, não existem equipamentos de proteção individual. A combinação destes fatos faz com que o trabalho nas carvoarias seja, antes de tudo, um problema de saúde pública.

A qualidade ambiental da região também está ameaçada por esta atividade, uma vez que os moradores já conseguem perceber as mudanças no clima, decorrida cerca de uma década de ação destas carvoarias. Considerando que cada caminhão comporta cerca de 50 m³ de carvão e que para produzir 1 m³ de carvão são necessários 3 m³ de lenha, uma única carga provoca uma destruição de 150m³ de lenha extraída das matas da região.

Estudos revelam que o volume médio de lenha retirado no processo de desmatamento no caso da caatinga arbustivo-arbórea fechada está em torno de 52,6 m³/ha. Desta forma, cada caminhão carregado de carvão provoca a destruição de uma área média de 2,85 ha de matas. Se cada uma das cinco carvoarias conhecidas na região carregar um caminhão por dia, o que está acontecendo segundo relatos de trabalhadores, haverá uma subtração anual superior a 6 milhões de árvores e arbustos, que correspondem a mais de 5.200 ha de caatinga nativa destruído em apenas um ano.

Diante de tal situação, moradores de comunidades tradicionais vizinhas a estas carvoarias temem sofrer outros efeitos, além dos que já são perceptíveis. Apesar de ocupar áreas muito grandes, como a fazenda Calumbi em Buritirama, que explora mais de 18.000 ha, a população da região avalia que no atual ritmo de uso das matas, não será possível manter uma regularidade no funcionamento das carvoarias sem extrapolar as áreas utilizadas atualmente.

Por isto, as comunidades que estão ao redor destas carvoarias se preocupam em ter suas terras cobiçadas. Esta possibilidade se amplia pela grande conservação das matas destas comunidades, que apresentam outra relação com o meio ambiente, cultivando alimentos e criando animais em pasto comum natural, nos chamados Fundos de Pasto. Existe um grande receio de que, na falta de madeira em suas terras, as carvoarias comecem a entrar nas matas das comunidades para a retirada de lenha.

Enfim, diante das atuais constatações dos pesquisadores sobre os efeitos das mudanças climáticas, que revelam um quadro extremamente preocupante e sugerem uma mudança de postura de todos os países na relação com o meio ambiente, é cada vez mais urgente uma fiscalização rígida destas carvoarias. Nesta região existem denúncias que precisam ser apuradas que variam desde o funcionamento clandestino de carvoarias, que compram “notas frias” de outras que são licenciadas, até mesmo tráfico de drogas e trabalho escravo.

Fonte: Informe da Comissão Pastoral da Terra – Regional Bahia, publicado pelo EcoDebate

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