Não há mais tempo a perder. É urgente preservar a caatinga.

Caatinga: Foto Hugo Macedo

Único bioma de ocorrência exclusiva no Brasil, que já ocupou 10% do território nacional, a caatinga experimenta um processo acelerado de desmatamento – que pode significar a desertificação do Semiárido nordestino. Com 510 espécies de aves e 148 de mamíferos, a caatinga padece da ausência de uma política clara de conservação, que estanque o processo de desflorestamento e ajude a impedir a formação de um deserto em pleno Nordeste, ameaça concreta diante do aquecimento global do clima no planeta. Quase dois terços da área sob risco de desertificação no Brasil estão na caatinga, que já teve, a exemplo do cerrado, aproximadamente metade de sua extensão, que é de 826 mil km², destruída.
Graças ao primeiro balanço resultante do monitoramento por satélite, foi detectado o sumiço, entre 2002 e 2008, de uma área com três vezes o tamanho do Distrito Federal – pouco mais de 16,5 mil km². O ritmo é semelhante ao do desmatamento da Amazônia, com consequências graves, já que nesse passo a caatinga, cinco vezes menor, será consumida muito mais rapidamente. Por ano, a vegetação equivalente a duas cidades de São Paulo, a maior do Brasil, some do mapa, atirando 25 milhões de toneladas de carbono na atmosfera – e apertando ainda mais o ciclo do aquecimento global. De acordo com as previsões sombrias baseadas nestes números, o aumento da temperatura levará à redução das chuvas e ao êxodo populacional, em direção aos centros urbanos. Se nada for feito para conter o processo, a vulnerabilidade da caatinga ameaça prejudicar a recuperação da economia nordestina verificada nos últimos anos. Segundo o coordenador da Campanha do Clima do Greenpeace, João Talocchi, somente o milho pode ter uma perda de 15% de sua área plantada no Brasil, gerando um prejuízo anual de R$ 1,5 bilhão.
Duas cidades pernambucanas integram a lista dos dez municípios campeões do desmatamento – Serra Talhada e São José do Belmonte. A mata está sendo comida, em grande parte, sob a forma de carvão e lenha, para levar energia para siderúrgicas e indústrias de gesso e cerâmica. Um motivo adicional para o governo dar incentivos à proteção, seja através da instituição de parques federais e estaduais, seja através do instrumento da Reserva Privada do Patrimônio Natural (RPPN), que impede o uso predatório de grandes terrenos privados, com o apoio do poder público. Do ponto de vista meramente econômico, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, tem parcialmente razão quando diz que o desmatamento irá continuar, se não forem adotadas fontes alternativas de energia, como o gás natural e a energia eólica. Mas a opção pela preservação, dos parques e das RPPN, já se mostrou eficaz e deve, sim, ser estimulada. Até porque a substituição da matriz energética no Semiárido nordestino não é uma medida que se tome da noite para o dia. Enquanto a Comissão Nacional de Combate à Desertificação, criada em julho de 2008, não diz a que veio – teve apenas uma reunião até agora – o avanço da destruição da caatinga aumenta na mesma proporção os limites potenciais do deserto brasileiro. Falta “fortalecer institucionalmente” a questão, na avaliação de um integrante do próprio governo federal, o secretário de extrativismo e desenvolvimento rural sustentável do Ministério do Meio Ambiente, Egon Krakhecke. Esse fortalecimento passa pela urgente adoção de uma política de reflorestamento das áreas degradadas, e preservação da mata remanescente, que impeça a sua destruição.
Para preservar a caatinga, será preciso mais do que fiscalização – sempre de difícil execução no País – ou a declaração de boas intenções. Um dos caminhos viáveis parece ser seguir a fórmula adotada na Amazônia, que possui 20% de seu território protegido por lei. Na caatinga, esse percentual é de apenas 7%. A promessa do governo federal de utilizar metade do Fundo de Mudanças Climáticas para a recuperação do bioma, bem como a perspectiva de criação de um Fundo Caatinga pelo Banco do Nordeste, são notícias importantes, porém devem ultrapassar logo a fase dos discursos. A caatinga brasileira não tem mais tempo a perder.
(Fonte: Editorial do Jornal do Commercio 16.03.2010)

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