Livro fotográfico registra luta em defesa do Velho Chico



Por Michelle Amaral

O fotógrafo João Zinclar lançou em Campinas (SP) o livro “O Rio São Francisco e as Águas no Sertão”. O trabalho é resultado de um ensaio fotográfico realizado entre 2005 e 2010.
Durante os cinco anos, o fotógrafo percorreu as margens do São Francisco em oito estados e registrou a cultura do povo ribeirinho e sua luta em defesa do rio.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Zinclar contou que a ideia de realizar o ensaio fotográfico surgiu com a intensificação das discussões e mobilizações contrárias à decisão do governo federal de realizar a transposição das águas do rio. “Senti necessidade e vontade política de contribuir nesse debate através da fotografia, nesse cenário de conflitos em torno do uso e controle das águas do Velho Chico”, conta.
O fotógrafo afirma que, apesar do início das obras, o conflito em torno do projeto da transposição continua. “É uma questão mal resolvida e que pode ter desdobramentos futuros”, explica. Nesse sentido, ele acredita que o livro possa contribuir no debate e luta em defesa do rio. “Esse livro é parte, expressão e identificação com aquele povo em defesa do rio e na luta pela terra naquela região”, resume.
O lançamento da obra foi acompanhado do debate “Água: Direito ou Mercadoria?”, que contou com a presença do diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, e assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e membro da Articulação Popular São Francisco Vivo, Terra, Água, Rio e Povo, Roberto Malvezzi, o Gogó.
Confira entrevista a seguir.

Como nasceu a idéia de produção do livro fotográfico?
João Zinclar: Esse livro é a conclusão de um ensaio fotográfico que vem sendo realizado desde 2005 até hoje no rio São Francisco e no sertão nordestino. É uma obra coletiva, pois contou com a valiosa contribuição de várias pessoas amigas, que escreveram textos que enriqueceram a publicação. A ideia de fotografar essa pauta surgiu com a intensificação das discussões e mobilizações do povo ribeirinho e dos movimentos sociais contrários à polêmica e equivocada decisão do governo federal de fazer a transposição das águas do São Francisco. Senti necessidade e vontade política de contribuir nesse debate através da fotografia, nesse cenário de conflitos em torno do uso e controle das águas do velho Chico. Antes de virar livro, essas fotos já foram expostas em vários lugares, serviram para estimular debates e ilustrar varias reportagens sobre a transposição, principalmente as realizadas pelo Brasil de Fato ao longo desses cinco anos. Esse livro é parte, expressão e identificação com aquele povo em defesa do rio e na luta pela terra naquela região.
Você poderia falar da experiência vivida no período em que percorreu o Rio São Francisco?
Conhecer melhor aquele povo, suas aspirações, sua cultura e suas lutas foi uma experiência rica em fundamentos. O contato e a interação nas beiradas do rio São Francisco com os povos tradicionais, indígenas, quilombolas, pescadores ribeirinhos, trabalhadores camponeses sem terra, pequenos agricultores, vazanteiros, em sua lutas por terra e água, fizeram ampliar meu entendimento sobre a luta de classes no Brasil. À sua maneira, esse povo contribui na linha de frente no conflito com o capital, resistindo e procurando construir alternativas à nova fase do avanço do agronegocio no campo e do capitalismo no Brasil.
Quais dificuldades você enfrentou no período de produção da obra?
Fui assaltado na estrada em Cabrobó (PE), juntamente com o jornalista e amigo Flaldemir Sant’ana. Sofri ameaças de morte fotografando carvoarias em Buritirama (BA). Tirando esses fatos indesejáveis, na verdade, não encontrei muita dificuldade, pois contei com apoios logísticos importantes de sindicatos de trabalhadores e pessoas amigas de Campinas (SP), cidade onde moro, e principalmente com a receptividade política, o desprendimento e a solidariedade ativa do povo lutador da bacia hidrográfica do Rio São Francisco e do sertão nordestino. Veio desse povo e de suas organizações políticas, sociais e pastorais, todo apoio necessário com transporte, alimentação e hospedagem, contatos e informações valiosas que ajudaram a compreender realidades pelos caminhos do velho Chico. Sem essa solidariedade seria impossível percorrer diversas vezes, os mais de 10 mil quilômetros rodados em 8 estados (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará) desde 2005.
O lançamento do livro será feito juntamente com um debate sobre a questão das águas no Brasil. Nesse contexto, qual a importância do livro?
Penso que os conflitos em torno da defesa, do uso e do controle sobre as águas têm importância estratégica nas lutas dos trabalhadores e dos povos no mundo. Isso não é diferente no Brasil. Esta questão expõe as contradições do sistema, baseado na exploração do trabalho e na transformação de tudo e todos em mercadorias que só têm valor se apropriadas privadamente. As riquezas naturais só são riquezas no capitalismo se pertencerem a alguém. Portanto, a água, a terra, a floresta, os vários biomas e seus recursos só têm valor se transformados em bens e serviços para venda. Assim, a luta necessária para garantir acesso de bens comuns a todos assume caráter de confronto anti-imperialista e anti-capitalista, extrapolando o caráter meramente ambientalista. “A guerra pela água em Cochabamba” na Bolívia, onde o povo boliviano rebelou-se contra a privatização da água naquela cidade por uma empresa estrangeira, e a luta contra a transposição do rio São Francisco no Brasil são provas cabais disso. Apesar da concretização do inicio das obras, entendo que o conflito e a controvérsia em torno do projeto de transposição continuam. É uma questão mal resolvida e que pode ter desdobramentos futuros. Creio que esse livro se insere nesse contexto.






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