Agroecologia traz qualidade de vida.


Agrotóxico não entra no quintal produtivo da família Sousa. Ali, dezenas de plantas são cultivadas,
garantindo alimentação saudável e renda.

FOTO: RODRIGO CARVALHO

Na comunidade de Uruá, a 12 km do município de Barreira (CE), a família de dona Océlia Sousa é exemplo de sustentabilidade. Filha de agricultores, ela e o marido passaram duas décadas para conseguir ter a própria terra. Com a ajuda da Organização Barreira Amigos Solidários (OBAS), tocam um sítio de 12 hectares de maneira agroecológica. Substituíram práticas prejudiciais pelo conhecimento adquirido pela filha mais nova, Amália Sousa, que cursa Agroecologia e Meio Ambiente
A família de Maria Océlia Santiago Lima de Sousa é exemplo de superação no sertão cearense. Filha de agricultores, ela sempre sobreviveu da terra, mas passou 21 anos para ter o seu próprio pedaço de chão. Cresceu sem estudo porque o patrão de seus pais não permitia que os empregados e dependentes frequentassem a escola. Hoje, valoriza tudo o que conquistou e, com um sorriso no rosto, diz: "meus filhos estudaram para não passar pelo que eu passei. Estão todos de barriga cheia. Agora, daqui pra frente é com eles".
Casada com o agricultor Antônio Freitas de Sousa (o seu Tanin), Océlia decide os rumos da família. A começar pelo sonho de ter o próprio roçado. "Sempre dizia: Tanin, vamos comprar um cantinho prá nós. E ele dizia: não tô avexado pra sair daqui". Como trabalhava para bons patrões, não nutria a mesma ambição da esposa.
O casal trabalhava numa fazenda - ele tratorista e ela na lida da castanha de caju. "Nunca gostei de cozinha, prefiro a roça", emenda Océlia. Depois, passaram a administrar o lugar. "Tinha noite que eu dormia no pé do forno, secando castanha", relata ela, destacando que não era exigência do patrão. Um dia, contam eles, o dono da terra chamou Tanin, mandou contar as cabeças de gado e os pés de caju. A aflição bateu na família. "Ele ia vender a propriedade, se mudar para Brasília, e como seria o novo patrão?", perguntaram-se.
Antes de descobrir se o proprietário seria tão generoso quanto o anterior, venderam as dez cabeças de gado que tinham juntado com muito trabalho e, com a ajuda do patrão antigo, investiram na compra do sítio de 12 hectares onde a família vive. Passaram quatro anos para construir a casa.

Água pouca

A dificuldade de água era grande na comunidade de Uruá, quando a família começou a própria roça. Cada grupo tinha direito a um tambor (equivalente a 200 litros) de água salgada por dia. "Nunca desperdicei nem água de lavar a roupa ou da pia. E continuo juntando para molhar as plantas no quintal", conta Océlia. Com o apoio da Ematerce, veio o poço, um investimento de R$ 16 mil - que deu início à plantação de milho, feijão e mandioca.
Anos depois, com o apoio da paróquia, começou a construção de cisternas de placas. Cético, seu Tanin não acreditou na história de juntar água da chuva. "A gente só tinha dinheiro para comprar três anéis. Juntamos dinheiro e conseguimos fazer a cisterna de 16 mil litros, que serve para o nosso consumo", conta Océlia.
A segunda cisterna, de 52 mil litros, veio para garantir o crescimento do roçado, que hoje conta também com mamão, goiaba, jerimum, girassol e plantas medicinais.
Ao contrário do irmão mais velho, Amália Santiago de Sousa, 19 anos, não pensa em sair do sítio da família para tentar a vida numa cidade de maior porte. Contrariando a mãe, que queria que ela cursasse Agronomia, ela preferiu seguir o que chama de nova tendência no campo: a agroecologia. Quer aplicar na propriedade da família os conhecimentos que está adquirindo no curso técnico. "A gente sempre foi agro-sustentável e não sabia", fala.
Quando compraram o local, a terra era degradada (compactada). O pai tinha hábito de fazer queimada. "Meus pais sempre ensinaram os filhos a trabalhar na terra. Hoje, com o meu curso de Agroecologia e Meio Ambiente, implanto aqui práticas mais sustentáveis". Por meio do curso, já fez intercâmbio em agrofloresta. Desta experiência, voltou com ideia fixa de introduzir o plantio de espécies nativas da Caatinga. "Eu trago várias sementes. Quando o pai vê, elas já vingaram e tem pena de cortar", entrega. Também aprendeu a fazer compostagem, livrando o plantio de adubo químico. Agrotóxico ali, nem pensar!
(Fonte: Diário do Nordeste)

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