Pesquisa para a adaptação.



Os estudos para o melhoramento das condições dos criadores no semiárido
incluem uma revisão das formas tradicionais, que sobrecarregam o ambiente.

FOTO: EDUARDO QUEIROZ

O desenvolvimento tecnológico no semiárido caminha na direção do enfrentamento das condições adversas por meio de uma harmonização das atividades produtivas com o ambiente onde são desenvolvidas, de forma a garantir uma produção sustentável do ponto de vista ambiental, social e econômico. Para isso, no entanto, é necessário um esforço na integração de pesquisas e políticas públicas para a propagação de atitudes que promovam o uso sustentável dos recursos do bioma Caatinga
A herança colonial brasileira do desperdício e da devastação dos recursos naturais entra em choque com uma nova mentalidade que começa a ser esboçada a partir dos anos 1990. Eis que o semiárido também sofre respingos desse novo pensar sobre o meio ambiente. Sai da condição de um lugar do sem jeito para se tornar um espaço de possibilidades. O desafio, agora, é como melhorar ou adaptar a biodiversidade da região, sobretudo ao contexto das mudanças climáticas, que prevê aumento de temperatura e escassez de água.
Ana Clara Rodrigues Cavalcante, zootecnista da área de forragicultura e pastagens da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Caprinos e Ovinos afirma que, há alguns anos, o assunto recebe atenção especial por parte das instituições: "Temos trabalhado com projetos de longa duração que podem fornecer subsídios para identificar quais aspectos climáticos afetam mais as plantas e os animais e de que maneira esses componentes reagem a essas mudanças".
A instituição está de olho no desenvolvimento de que permitam a criação de um ambiente mais favorável à produção agropecuária minimizando os impactos negativos das mudanças climáticas. Nesse sentido, são desenvolvidos modelos integrados, como do tipo Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF), no qual está inserido o Sistema Agrossilvipastoril para a Caatinga, baseado em princípios da agroecologia.

Vegetação nativa

Outra área de atenção é voltada para a vegetação nativa, sendo criadas técnicas de manipulação da vegetação de modo a garantir que as plantas possam fornecer serviços ambientais que justifiquem a manutenção delas nos sistemas de produção praticados no semiárido, evitando o desmatamento. No que diz respeito às empresas de fomento, são gerados índices técnicos e sugestões sobre políticas de crédito para financiamento de projetos com uso de tecnologias sustentáveis.
As pesquisas são de longa duração, por isso, muitas continuam em execução. "Não apenas medindo os indicadores de sustentabilidade, mas também buscando a solução de novos problemas que vão surgindo dentro do sistema de produção, identificados tanto pela pesquisa convencional quanto pela experiência com os agricultores.
A nova realidade que está sendo desenhada por pesquisadores requer uma melhor atenção à região. Entretanto, mesmo reconhecendo o apoio que o órgão vem recebendo, devido aos novos desafios de pesquisa, reconhece que ainda faltam equipamentos, principalmente para o monitoramento das variáveis ambientais e climáticas. "Temos muita dificuldade em encontrar pessoas treinadas para trabalhar pesquisas em ambiente semiárido", revela. A saída é interagir com os programas de pós-graduação para promover a integração de estudantes aos projetos desenvolvidos pela Embrapa com foco no semiárido, formando assim novos pesquisadores.

Melhoramento

A integração do ecossistema semiárido inclui espécies animais. "Atualmente, existem diversas ações voltadas ao melhoramento genético de caprinos e ovinos no Brasil, principalmente na região semiárida", destaca Raimundo Nonato Braga, médico veterinário que trabalha no melhoramento genético da Embrapa Caprinos e Ovinos.
Entre as experiências, cita o Programa de Melhoramento Genético de Caprinos e Ovinos de Corte (Genecoc), o de Caprinos e Ovinos Leiteiros, além do trabalho com a raça Santa Inês, uma parceria da Associação Sergipana de Criadores de Caprinos e Ovinos (Ascco) e a Universidade de São Paulo (USP).
O objetivo dos programas é promover o melhoramento genético para aumentar a produção sem perder de vista a sustentabilidade ambiental. "Esses programas buscam selecionar animais adaptados ao ambiente, em vez de modificar o lugar para permitir a sua criação", esclarece o veterinário.
Além de enfocar os aspectos de produção, as ações visam também "estudos moleculares para a identificação de genes que possam ser usados como marcadores de seleção". O pesquisador destaca os trabalhos relacionados aos núcleos de conservação das raças Santa Inês, Morada Nova, Somalis Brasileira e dos caprinos Canindé e Moxotó. Os estudos incluem desde a conservação dessas raças até a manutenção de sua viabilidade genética, protegendo da extinção. Morada Nova é um dos grupos genéticos mais adaptados ao semiárido. Por isso, foi criada uma rede pesquisa para esta raça, formada por diversas instituições de ensino, pesquisa e administração pública para estudar suas características, promover conservação e melhoramento.
Os pesquisadores destacam ser uma realidade mundial a presença significativa do rebanho dessas duas espécies em regiões de climas árido e semiárido, sendo considerada fonte geradora de alimento e de renda para as populações.
Com relação à convivência entre as espécies vegetais e animais, levando em consideração o respeito e a conservação da biodiversidade, afirma que, em condições "selvagens esta convivência é harmônica em função de mecanismos de adaptação e seleção natural, além do tamanho extenso das áreas permitir uma distribuição uniforme dos rebanhos em torno das áreas de pastejo. Os animais, de tempos em tempos, mudam de área quando a forragem escasseia."
Em condições de fazenda, no entanto, o convívio vai depender do tipo de manejo imposto pelo criador. No Brasil, é comum a degradação do semiárido por super-pastejo. Em outras palavras: são colocados mais ovinos, caprinos e bovinos do que comporta a capacidade do pasto, podendo colocar em risco a biodiversidade.
Para evitar a situação, a Embrapa realiza mapeamento dos sítios de pastejo e o período em que apresentam maior disponibilidade de forragem. As informações são essenciais aos produtores para a prática do manejo sustentável, a fim de que coloquem número compatível de animais, em cada área, garantindo o uso sustentável da biodiversidade da vegetação nativa, explica Ana Clara Rodrigues Cavalcante.

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